A Dimensão do Perdão e o Julgamento Divino
Olá, amigos.
Segundo o dicionário, o termo perdão significa tecnicamente a remissão de uma ofensa ou culpa — a concessão da quitação de uma dívida que isenta o devedor das obrigações ou penalidades decorrentes.
Fundamentado exclusivamente na Palavra de Deus, este artigo propõe-se a traçar a vasta dimensão do perdão dos pecados humanos sob perspectivas nem sempre abordadas, mas de fundamental importância para a fé.
Em relação à atitude de Deus ao perdoar as transgressões humanas, muitos a interpretam erroneamente como uma postura de indiferença, como se Ele simplesmente "passasse por cima" do erro, desconsiderando as más consequências do ato. É como se o pecado fosse algo banal e corriqueiro e que, pelo fato de o homem ser falível, estivesse naturalmente autorizado a errar — ou que, pelo fato de Deus ser Deus, tivesse Ele a obrigação de isentar a humanidade de sua inclinação ao mal.
Contudo, essa questão exige observações profundas e cuidadosas.
Encontramos na Bíblia promessas consoladoras de que, em Jesus — nosso fiel Advogado e Resgatador —, os pecados de todos os arrependidos são lançados no esquecimento, sem jamais serem reapresentados para vergonha:
“Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade e te esqueces da transgressão do restante da tua herança? O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia. Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos pés as nossas iniquidades e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar.” (Miqueias 7:18-19)
É necessário compreender, porém, que antes da consolidação definitiva desse cancelamento e da anulação de suas consequências mortais, todos os casos passarão por uma criteriosa avaliação em um julgamento ao qual os seres humanos serão submetidos, um a um, sem distinção.
Diversas passagens bíblicas corroboram essa verdade. O próprio Jesus assim ensinou:
“Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz e sairão...” (João 5:28-29)
Isso significa que, por ocasião do regresso de Cristo, os casos de toda a humanidade já estarão decididos. Os remidos receberão o seu galardão, enquanto os demais sofrerão as sanções pertinentes à sua condição de reprovados nesse exame prévio.
O Processo do Juízo em Etapas
Para compreendermos como ocorre esse processo, subdividiremos o tema em etapas progressivas:
- O Registro dos Atos: Diariamente, todas as ações humanas são registradas nos livros celestiais de forma precisa (tema abordado em nossa série de estudos sobre o Santuário Celestial). As boas obras ficam gravadas no Livro das Memórias (Ml 3:16; Sl 56:8; 69:28). As más ações, por sua vez, são registradas no chamado Livro do Juízo ou dos mortos (Is 65:6; Ap 20:11-15). A Bíblia menciona ainda um terceiro registro: o Livro da Vida (Is 4:3; Dn 12:1). O destino final de cada réu estará em estrita conformidade com o conteúdo desses livros.
- A Inscrição dos Remidos: Quando alguém aceita pela fé o sacrifício expiatório de Cristo, seu nome é automaticamente inscrito no Livro da Vida (Lc 10:20; Fl 4:3).
- A Ordem do Julgamento: O julgamento começa por aqueles cujos nomes se encontram inscritos no Livro da Vida, ou seja, todos aqueles que, de alguma forma, professaram fé em Deus e tiveram seus nomes lá registrados (1Pe 4:17).
- A Possibilidade de Apagamento: É possível ter o nome apagado do Livro da Vida? A resposta bíblica é sim (Êx 32:32-33; Sl 69:28; Ap 3:5). O julgamento da classe eleita e o da reprovada não são simultâneos. O primeiro ocorre antes da segunda vinda de Jesus (o Juízo Investigativo); o segundo ocorre após o Seu retorno, durante o período do milênio (1Co 6:3; Ap 20:6). Primeiro, são analisados os relatórios daqueles que professaram a fé. Conforme o teor dessas anotações, é expedido o veredicto final.
- A Análise das Petições: São consideradas no juízo as petições de perdão feitas ao longo da vida do pecador, as quais foram registradas paralelamente às transgressões praticadas.
O Critério do Grande Juiz: A Motivação do Coração
Adentramos agora o ponto central dessa análise: o critério de julgamento utilizado pelo Grande Juiz.
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações.” (Jeremias 17:9-10)
Ao examinar a biografia do ser humano, Deus não toma como base apenas o ato exterior consumado, mas a intenção que o motivou — a motivação interna que se traduziu em ação.
O resultado prático de uma atitude não é o único elemento na escala de avaliação divina. O que a inspirou e a motivou recebe atenção especial da parte de Deus. Toda a Escritura enfatiza o estado do coração:
- Jesus ensina que a árvore é conhecida pelos seus frutos (Mt 7:15-21).
- Menciona a necessidade do novo nascimento a partir de uma transformação interior (Jo 3:3).
- Resume a Lei divina no amor sincero de coração a Deus e ao próximo (Mt 22:37-40).
- Ao exemplificar a profundidade dos Mandamentos, declara: “Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela” (Mt 5:27-28).
O pecado encontra sua raiz no coração. É ali que ele deve ser combatido e vigiado, pois é ali que ele será julgado.
As Duas Formas de Arrependimento
Essa realidade nos leva a discernir dois tipos de atitude diante do erro, ilustrados nas Escrituras:
- Davi e Pedro: Ao errarem, entristeceram-se profundamente, sentiram vergonha da transgressão e abandonaram o pecado.
- Saul e Judas: Também se contristaram e sentiram o peso de seus erros, mas a motivação foi diferente. Eles temeram mais as consequências e a punição do pecado do que a fealdade da transgressão em si perante Deus.
Eis a diferença entre os pedidos de perdão apresentados diariamente aos Céus. Ao passarem pelo crivo da Lei Divina, os pedidos são avaliados pela motivação real que os inspirou.
Quando é constatada a veracidade do arrepender-se sinceramente pela falha cometida, Jesus ergue Suas mãos em direção ao trono do Pai, exibe as marcas dos cravos e declara: “Comprado pelo Meu sangue!”
Pensemos nisso.
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