Querido e prezado irmão:
Esta não é uma carta para tentar convence-lo de nada, muito menos para defender dogmas que fecham portas. Escrevo a você — que olha para a imensidão do mundo e não vê ninguém do outro lado — como alguém que busca, exatamente assim como você, entender onde estamos pisando. Antes de qualquer divergência, quero firmar aqui o único compromisso que nos une: o meu amor incondicional pelos fatos e, acima de tudo, o velho brado de que posso discordar de cada palavra que diga, mas defenderei até o fim o seu direito de dizê-la.
O que trago aqui não é um debate para ver quem ganha uma discussão, mas uma conversa simples entre duas mentes que amam a verdade. E para que esse papo seja verdadeiro, quero começar abrindo a guarda: defendo o seu direito de crer ou de não crer com a mesma paz com que defendo o ar que respiro. O seu lugar no mundo é soberano, e o meu respeito por ele é total.
Porém, para olharmos juntos para o mistério da vida — o silêncio do cosmos e a complexidade do raciocínio —, precisamos primeiro dar uma olhada dentro de nós mesmos.
A gente costuma falar de democracia só da porta para fora, como a regra que nos ajuda a conviver em sociedade. Mas a verdadeira democracia precisa nascer bem antes disso, lá nos recônditos do nosso peito. Antes de reger o mundo lá fora, ela precisa governar a nossa própria mente. Se não fizermos isso, corremos o risco de envenenar todas as nossas conclusões. Precisamos instaurar um regime democrático dentro de nós mesmos: nos sentimentos, nos pensamentos, nas certezas e nas dúvidas. Isso quer dizer olhar para as coisas com honestidade, comparar lógica com lógica e deixar o nosso raciocínio caminhar livremente, juntando as peças e as evidências sem o chicote da conveniência.
Acima de tudo, é desatar o nosso espírito das amarras das paixões, das manias e dos velhos preconceitos, por amor puro — e às vezes doloroso — à realidade dos fatos.
Muitas vezes, vemos por aí pessoas defendendo causas justas com unhas e dentes, mas esquecendo-se da própria essência do que defendem. Exigem tolerância para o seu próprio mundo, mas fecham as portas para qualquer possibilidade de discordância alheia. Transformam a democracia num ringue, onde só tem direito de falar quem bate palma para o mesmo lado. Quem defende a democracia apenas como um escudo para a sua própria tribo — eliminando o direito do outro de discordar — em nada tem de democrático. Se eu defendo o direito de cada um ser o que deseja ser, preciso ter a hombridade de aceitar que o outro olhe para o mundo com lentes diferentes das minhas, sem que isso destrua o respeito mútuo.
Por que, afinal, decidi te escrever? Se há um propósito que impulsiona estas linhas, ele não nasce de nenhuma pretensão de ensinar, mas brota exclusiva e absolutamente do amor. Amor pela verdade que nos liberta, e amor pela missão e pelo privilégio de poder me dirigir a você sem a menor distinção. Porque, no fundo essencial de todas as coisas, você — queira ou não, creia ou não — é meu irmão, filho do mesmo Pai que sustenta o nosso fôlego.
E é por reconhecer essa irmandade que precisamos encarar a realidade inteira. Ateus e teístas, debaixo deste mesmo céu, estamos sujeitos às exatas mesmas dores, às mesmas fraquezas, aos mesmos tropeços e às mesmas paixões que nos rondam. Isso nos coloca lado a lado, nivelados na mesma fragilidade terrena.
No entanto, há um horizonte que diferencia o olhar: a Esperança Futura. Uma certeza que abraçamos não por mero capricho ideológico, mas porque a democratização rigorosa do nosso raciocínio conseguiu juntar os elos imprescindíveis que o universo desenha diante de nós. Para quem ainda não enxerga esse elo, essa ausência de esperança pode se tornar uma perda irreparável — mas que, felizmente, ainda pode ser acolhida e consertada no tempo que nos cabe, neste exato "dia que se chama hoje".
No fundo de tudo, o objetivo maior de me dirigir a você é o de te falar de Jesus. Eu sei que hoje você não crê; mas há algo no íntimo da consciência — algo que não se nega simplesmente da boca para fora — que sussurra a verdade: Ele também morreu por você. O amor que o Salvador sente por ti é tão imenso que desafia a própria morte, e o desejo maior do Mestre é simplesmente dar-se a conhecer a ti, face a face com a tua alma.
Eu sei que o caminho até aqui está cheio de ruídos. Em meio a tanta balbúrdia religiosa, a tanto preconceito, soberba e arrogâncias — onde o próprio meio religioso, contaminado por sua aliança com o mundo, tornou-se muitas vezes a maior fábrica de ateus —, a verdadeira luz continua brilhando. Ela brilha para todos, mas torna-se acessível àqueles que mantêm o coração honesto, aberto e disposto a trilhar o caminho do amor. A verdade liberta, mas ela só se deixa abraçar por quem une integridade intelectual, democracia interior e a doçura de um coração que deseja, acima de tudo, participar das bênçãos infinitas da vida.
Termino esta carta não como quem aponta o dedo, mas como quem estende a mão. O cosmos pode parecer silencioso, mas o eco do nosso diálogo — feito de respeito, de busca honesta e de afeto genuíno — prova que nunca estivemos tão sozinhos quanto imaginávamos. Que a luz da razão e a paz do Mestre habitem sempre o nosso interior.
Gode Oliveira
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