QUARTA CARTA: TIATIRA
A terceira fase da igreja fora conturbada para a fé cristã. Um número incontável de concílios, éditos, discussões, polêmicas e até embates armados negociaram e pulverizaram verdades contidas nas Escrituras.
Desde a "conversão" de Constantino — que potencializou um faccioso regime teocrático —, a vida dos fiéis seguidores de Jesus tornou-se enormemente dificultada. O surgimento dessa nova interpretação dogmática, que mesclava o cristianismo a tradições pagãs, foi implantado como ideário eclesiástico, poluindo a igreja outrora chamada "Desejável" e pura.
Constantino propôs essa sistematização sob a promessa de salvaguardar os militantes do Evangelho, mas a adoção de tais condições custou um preço altíssimo às diretrizes sagradas! A princípio, não haveria mais soldados romanos arrombando lares cristãos ou ceifando violentamente a vida de pais, mães, jovens, crianças e idosos sem piedade nem escrúpulos.
Como Satanás é astuto! Aqueles que pleiteiam a remissão no sangue salvífico e imaculado do Salvador devem tomar total precaução contra ele. Afinal, estes são o alvo principal do mais ferrenho inimigo das virtudes e da vida. Não se deve presumir que o fato de Jesus tê-lo desmascarado na cruz do Calvário tenha inibido suas investidas ou o tornado inofensivo em seu intento de destruir as Escrituras no cerne da fé dos crentes.
Se assim fosse, o diabo não teria tomado as rédeas dos acontecimentos durante aquele período eclesiástico, determinando um futuro corrompido e ensanguentado. Muitos cristãos complacentes — denunciados na profecia sob a nomenclatura de "falsos judeus" — viram na proposta do imperador uma oportunidade. Associando-se ao calculista projeto romano de viés pagão, conspurcaram doutrinas essencialmente bíblicas, inserindo-as em um catecismo que, no período seguinte da igreja, seria arbitrária e compulsoriamente imposto a todos. E ai daqueles que o contrariassem!
É doloroso constatar que, embora grande parte do mundo atual conceda passe livre à Bíblia, poucos nutrem interesse por sua leitura e estudo. Naqueles malfadados tempos, contudo, muitos entregavam a própria vida pelo privilégio de ter contato com a Palavra Sagrada — mesmo que fosse o simples gesto de tocá-la —, pois compreendiam sua real relevância.
Tiatira (538 a 1798 d.C.)
A palavra Tiatira significa "Perfume suave de labor" ou "Sacrifício de contrição". Esse título descreve com precisão o estado dos servos de Deus durante o longo período de supremacia da cúria papal — um tempo de terrível aflição, como nunca houvera antes (Mateus 24:21).
As circunstâncias hostis, no entanto, purificaram a experiência daqueles que priorizavam a fidelidade. A tensão do conflito expurgava a indecisão, a dúvida e a mornidão, mantendo de pé apenas a convicção genuína. Daí receberem, por suas obras, caridade, serviço, fé e paciência, o elogio Daquele cujos olhos são como chama de fogo (Apocalipse 2:18-19). Tiatira é a única entre as sete igrejas elogiada por um progresso contínuo em suas obras espirituais.
Contudo, assim como em Éfeso a perseguição não justificava a condescendência com falsos ensinos, em Tiatira a abundância de trabalho e caridade não podia compensar a tolerância ao erro. Por isso, recebe uma severa censura por tolerar "Jezabel, mulher que se diz profetisa" (Apocalipse 2:20).
Obviamente, não se tratava de uma pessoa literal, mas de uma metáfora que aludia à esposa de Acabe, antigo rei de Israel. Jezabel matou os profetas do Senhor, induziu o rei à idolatria e sustentou os profetas de Baal à sua própria mesa (1Reis 18, 19 e 21). Não haveria símbolo mais apropriado para representar as abominações da apostasia eclesiástica. A história e a profecia revelam que a igreja permitiu a infiltração de ensinos corrompidos até que estes se apossaram da estrutura, banindo a verdade e perseguindo os fiéis observadores da Bíblia.
Durante 1260 anos, a congregação dos fiéis não teve endereço fixo. Montanhas, cavernas e florestas tornaram-se santuários de adoração ao Criador. É sob esse aspecto que a profecia descreve a mulher do capítulo 12 sendo levada ao deserto (isolamento), onde foi sustentada.
Qualquer pessoa surpreendida com uma Bíblia era caçada, presa e submetida a torturas projetadas para prolongar a agonia, fazendo com que a morte fosse desejada como um alívio. Historiadores estimam em cerca de 50 milhões o número de mártires na Idade Média — pessoas condenadas simplesmente por desejarem cultuar a Deus segundo os ditames de sua consciência.
Enquanto isso, a igreja dominante ostentava templos suntuosos e cultos solenes, alegando estar na presença da Majestade do Universo, mas ocultando por trás dos altares a ambição e a sede de poder. O sumo pontífice assentava-se como se fosse Deus (2Tess 2:3-4), atribuindo a si o poder de perdoar pecados e absolver culpas — um homem falível presumindo a prerrogativa de santificar outro pecador.
Convém relembrar que essa semente maligna germinou no período anterior. Tudo começou com alterações sutis em doutrinas bíblicas primárias. Em 321 d.C., Constantino alterou o dia de repouso do sétimo dia para o primeiro dia da semana, em homenagem ao Deus Sol. Posteriormente, dogmas papais introduziram no cristianismo a crença pagã da imortalidade natural da alma. Dessa premissa derivaram-se o conceito do inferno eterno e a intercessão dos santos — erros que compõem o catecismo seguido até hoje por grande parte do mundo cristão, inclusive por segmentos do protestantismo.
Apesar desse cenário desolador, a profecia sobre Tiatira não termina em desespero. Ainda restava uma esperança para o povo de Deus — tema dos próximos capítulos.
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