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Cruz ou Espada: O destino do homens

Apresentação (cap.1)    
INDECÊNCIA INTELECTUAL 

Venturosa a alma vivaz, comichada pela abelhudice das interpelações. Amplamente superior ao espírito mortiço, empalado na quimera do sabetudismo.

Para o indivíduo negligente quanto à necessidade de uma percepção austera e retilínea da realidade, torna-se vã qualquer análise multidisciplinar. Sem a lucidez adequada, ele se mostra incapaz de apreender com justeza as engrenagens invisíveis que regem o cosmo, visto que o pleno exercício dessa compreensão exige estímulos que emergem também da dimensão anímica.
O verdadeiro crescimento em erudição (epignosis) conecta a prática orientada a virtudes como empatia, respeito, integridade, desvelo e solicitude. Isto é: o padrão sistemático que estrutura a lógica do aprendizado por contrastes guarda direta correlação com uma rede neurológica complexa que une razão e emoção — onde o senso de justiça, a moralidade e as decisões éticas são processados no córtex pré-frontal.
​A dimensão interior desse sujeito relapso é forjada no confinamento de uma autonomia cerceada que renega a imparcialidade, o rigor e a despretensão. Ele delimita o cenário de modo a enxergar apenas o que lhe é conveniente, o que culmina em uma idiossincrasia estéril. Destaca-se, nesse comportamento, a armadilha da autoimportância: a vaidade que o seduz a reivindicar uma expertise ilusória sobre axiomas incontestáveis, distorcendo os fatos sob o filtro de suas preferências pessoais.
​Assim se obstaculiza a acuidade do discernimento — permissividade já advertida por Salomão quanto à toxicidade da arrogância intelectual: "Não sejas demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo?" (Eclesiastes 7:16).

Sam Walter Fauss, bibliotecário e poeta americano, autor de obras como “A Casa ao Lado da Estrada” e The Coming American”, também escreveu “O Conto da Trilha do Bezerro”; fábula lavrada em linguagem metafórica explicitando trâmite de curso endêmico nas correntes do pensamento humano.                 
O cenário dilata-se tendo centro o sinuoso traço rabiscado por um divagante bezerro, alienado do seu redil, e que a despeito de toda transtornada inconsistência daquele meandro, pelo prazo de longos três séculos e meio permanece sentenciado como baliza culminando tornar-se em alameda de grande metrópole; percorrendo nela irrefletidamente todos os dias cem mil transeuntes. 

Este enredo se fecha com o seguinte remate: “Os homens são propensos a seguirem cegos ao longo das trilhas dos bezerros da mente. E a trabalhar dia a dia, sol a sol, para fazer o que outros homens fizeram. Eles seguem no rastro batido, pela beira e pelo meio, para frente e para trás, permanecendo ainda em seus tortuosos caminhos, mantendo o caminho que outros fizeram. Eles fizeram do caminho uma trilha sagrada ao longo do qual suas vidas se movem. Como sorri o velho sábio deus da floresta. Ele, que viu o primeiro bezerro passar” 

​Virgílio, poeta romano do século I a.C., registrou nas Geórgicas: "Felix qui potuit rerum cognoscere causas" ("Feliz aquele que conseguiu entender a causa das coisas").

​Somam-se aos dois perfis comportamentais acima mencionados  — marcados pela arrogância e pelo alheamento da realidade — três pares de vícios cruciais para o diagnóstico presente: a soberba e a cobiça; a falsidade e a hipocrisia; e a preguiça aliada à estupidez acalentada.          ​                                              Quando esses traços de caráter deixam a abstração e ganham concretude, dão origem a males incomensuráveis. O último elemento mencionado, porém, carrega especial gravidade. Se aquele que investiga o saber com prazo ou limites definidos apenas palmilha as sendas da ignorância temporária, aquele que se rende à estupidez voluntária afunda em uma estultícia interminável — a qual alimenta as imaginações mais desregradas.​Preconceito, pedantismo e prepotência, somados à insensibilidade e à recusa ao arrepender-se, revelam o uso falho e desleixado da razão. Esse déficit de discernimento deforma gradualmente a consciência crítica, cuja autonomia e independência são indispensáveis. A ignorância, nesses termos, resulta de limitações operacionais ou de intenções dolosas; contudo, no tocante à compreensão tácita — fruto de uma percepção escrupulosa e minuciosa —, o descaso é o agravo mais recorrente. Da ignorância provém o obscurantismo; e é precisamente este que detém o maior potencial de fomentar a barbárie.


INDECÊNCIA ÉTICA 

O planeta Terra foi formado como um ambiente perfeitamente qualificado para abrigar a imensa diversidade de espécies que nele vivem. Seus abundantes recursos foram concebidos para garantir a subsistência de todos, exigindo, em contrapartida, que essa partilha ocorra de forma justa e equilibrada.                                       O descumprimento dessa dinâmica essencial compromete a integridade do todo.​Quando analisamos os rumos tomados pela humanidade no manejo da Terra, torna-se evidente a urgência de corrigir os desvios de uma rota que deveria ser pautada pelo equilíbrio. A Terra é uma fonte autossuficiente de vida, mas essa abundância exige um senso de justiça que assegure a cada ser vivo o necessário para a sua existência. A ruptura com essa ordem natural obscureceu o equilíbrio do mundo, abrindo espaço para a desigualdade, a exclusão e o sofrimento.

​Há dois milênios, a carta de Paulo a Timóteo já alertava: "O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males" (1Tm 6:10). Essa reflexão permanece atual. Embora tenha surgido como uma ferramenta para facilitar as trocas comerciais, a moeda foi perversamente utilizada para concentrar poder e subjugar parcelas da sociedade, erguendo divisões de classe e estruturas de dominação.               ​                      Com a transformação dos valores humanos em mercadoria, o senso de fraternidade deu lugar ao utilitarismo. As relações interpessoais passaram a ser guiadas pelo interesse e pela conveniência, suplantando a boa-fé e o desejo sincero de servir. Como lembrou Einstein: "Não existem homens maus. Existem homens ignorantes".​Contudo, a culpa não reside na riqueza em si — afinal, o dinheiro não possui vontade nem capacidade de julgamento. O problema está no egocentrismo e na ganância que moldam as intenções humanas. As posses materiais tornam-se armas quando instrumentalizadas por grupos de poder para manipular e marginalizar a maioria.​A interdependência na sociedade — expressa na diversidade de papéis, funções e recursos — não precisaria ser uma fonte de opressão. Se conduzida pela ética, essa complementaridade seria o antídoto ideal contra o egoísmo, lembrando-nos de que dependemos uns dos outros. É a obsessão pelo acúmulo e o culto ao dinheiro que continuam a alimentar as maiores tragédias da nossa história.



A METAMORFOSE DO ERRO

Toda reflexão profunda sobre a realidade que nos cerca precisa encarar o cérebro como o seu ponto de partida. Antes de adentrarmos suas estruturas mais complexas, vale observar alguns dos desdobramentos fascinantes da mente humana.
​Habitamos um universo observável com cerca de 93 bilhões de anos-luz de extensão. Traduzida em quilômetros, essa dimensão resulta em um número de magnitude quase inconcebível. Diante de proporções tão colossais, a mente hesita entre o espanto e a perplexidade — contudo, essa é a escala concreta do cosmo.                                               ​Para processar esse imenso cenário, dispomos de uma rede biológica formidável: 86 bilhões de neurônios que estabelecem entre si milhares de conexões sinápticas, totalizando dezenas de trilhões de pontes de comunicação.                        A neurociência confirma que mobilizamos a totalidade do cérebro, embora o modo como essa arquitetura produz a subjetividade, o pensamento e os sentimentos permaneça como um dos maiores mistérios da ciência. Em seus cerca de 1,4 kg, o cérebro é capaz de espelhar o próprio infinito. Contudo, essa máquina de decodificação gera um paradoxo: por que duas pessoas, diante do mesmo fato, extraem leituras opostas? O funcionamento cerebral é fruto de impulsos involuntários ou de diretrizes que construímos ao longo da vida? A resposta está no aprendizado e nos filtros que instalamos em nossa mente. Devido à sua neuroplasticidade, o cérebro tanto pode buscar a verdade por meio do contraste com os fatos quanto pode se fechar em bolhas cognitivas, tomando um fragmento de ilusão como se fosse a totalidade da realidade.​Quando a mente se descola do rigor da ponderação, a razão se perverte. A história humana é um testemunho doloroso dessa disfunção.
​Os horrores do Coliseu romano: obra do cérebro. ​As fogueiras e torturas da Inquisição: obra do cérebro. A barbárie do Holocausto: obra do cérebro. A violência urbana e o crime ordinário: obra do cérebro. A venenosidade do ódio e da inveja: obra do mesmo cérebro. ​Isso demonstra que a ideia de justiça pode ser completamente corrompida sem que o indivíduo perceba a própria cegueira. Para não sucumbir a esse paradoxo, é preciso registrar uma distinção fundamental: opiniões, crenças e teorias são construções humanas subjetivas; a verdade, por sua vez, é autônoma e só se valida no confronto direto com a realidade.

A PEÇA LITERÁRIA 

Ao delimitar o escopo desta obra no presente capítulo, cumpre ressaltar que não se pretende dogmatizar visões fideístas ou cientificistas          —posturas que convertem idealizações em modelos rígidos aplicados à sociedade.  Fideísmo (do latim, fé) se trata de doutrina teológica que, pregando verdades metafísicas, morais e religiosas, como a existência de Deus, Sua justiça e a existência de todas as coisas, despreza a razão preconizando serem verdades absolutas fundamentadas apenas pela revelação e a fé; enquanto cientificismo, concepção de matriz positivista, afirma a superioridade da ciência sobre todas as outras formas de compreensão humana da realidade: religião, filosofia, metafísica, etc. por ser a única capaz de apresentar benefícios práticos e alcançar autêntico rigor cognitivo.                          Pontuamos não ser feição debruçarmo-nos a minudenciar retóricas preceituais atinentes aos acima aludidos regimes, mormente ao caso de evidenciar-se nestas flagrante margem para "pontas soltas", o que impossibilita congruência quando numa contextualizada moção explanatória. 

Na estoicidade de buscar distinguir nas coisas o seu fidedigno modo de ser, nossa proposição volta-se à denúncia de resultados desencadeados em reflexo da conduta daqueles e que no nosso planeta tem impacto profundo, envolvendo a vida num geral. Aliás, sabedoria na sua mais plena definição consiste em virtuosa capacidade que discerne nas noções a sua genuína essência. Sábio é todo aquele que divisa naquilo que vê o seu absoluto modo de ser. “A história julga só os resultados e não os propósitos” (Gregorio Marañon) 


O MODUS OPERANDIS

Ainda que interpretações distorcidas da realidade se propaguem insidiosamente             —impulsionadas por doutrinações mal-intencionadas que sequestram a percepção humana— devemos nos curvar à busca por um rigor intelectual elevado, fundado na autenticidade de suas premissas.

A luz emanada de elementos indissociáveis e intransferíveis —que, ao se amalgamarem, conferem materialidade aos fatos— só ilumina a análise quando se estabelece a distinção fundamental entre mera opinião e conclusão comprovada, alinhando o discernimento às evidências averiguadas.                                     Fatos jamais se prestam a tergiversação condensada na anfibologia perpetrando nebuloso significado às palavras ou marota coonestação de meias verdades, carreguem os tais artifícios a loquacidade que for. “Se não existe nenhuma verdade última, então convicções podem ser facilmente instrumentalizadas para fins de poder” 
(João Paulo II)     

SETA FORA DO ALVO                                          

"Na verdade, a mentira é um vício maldito. Apenas pela palavra somos homens e nos ligamos uns aos outros. Se conhecêssemos o horror e o peso da mentira, iríamos persegui-la a fogo mais merecidamente que outros crimes" foi o que escreveu o francês Michel de Montaigne no livro Os ensaios, mais precisamente no capítulo IX, intitulado "Dos mentirosos" e datado de 1580.               
O ensaísta ainda achava "que costumamos perder tempo castigando despropositadamente nas crianças erros inocentes, atormentando-as por causa de ações irrefletidas que não deixam marcas nem consequência”. As mentiras, sim, deveríamos combater tenazmente”, pois "elas crescem junto com as crianças". "E, depois que se deu à língua esse andamento falso, é espantoso como é impossível afastar-se dele. Se, como a verdade, a mentira tivesse apenas um rosto, estaríamos em melhores termos, pois tomaríamos como certo o oposto do que dissesse o mentiroso", considerava Montaigne há mais de 440 anos, quando nem sequer existiam redes sociais para turbinar o problema. "Mas o reverso da verdade tem cem mil formas e um campo indefinido."        

O momento histórico presente reflete com exatidão a profecia registrada há dois milênios e meio. O painel da humanidade atual alinha-se ao relato bíblico: "o direito se retira e a justiça se põe de longe; porque a verdade anda tropeçando pelas praças e a retidão não pode entrar. Sim, a verdade sumiu, e quem se desvia do mal é tratado como presa"  (Is 59:14-15)                                  Neste ambiente de ambiguidade intelectual, todo aquele que recorre ao conceito de "verdade" para fundamentar uma proposição é prontamente interpelado pelo jargão retórico: "o que é a verdade?"​Sob uma perspectiva prática, a verdade define-se pela estrita conformidade com os fatos — constituindo o antídoto essencial contra a dissonância cognitiva que afeta o discernimento racional e ajustando convicções aos limites da realidade.
O perigo de quando a mente se rende ao equívoco é que, no processamento cognitivo, o verídico passa a ter o travo amargo do fel, enquanto o que é falso se naturaliza como uma iguaria de sabor adocicado feito mel.
A partir do momento em que a patranha se torna meio hábil para capturar o deslumbre alheio — e nisso obtém êxito —, qualquer postura idônea é rebaixada ao raso patamar da nulidade.
Nesse caso, todo vínculo social fica fadado ao estímulo da malemolência.                          Tragada com facilidade, a mentira é uma estrada pavimentada pelo descompromisso e pela negligência. O caminho da probidade, ao contrário, cobra um preço alto: exige disciplina, renúncia, paciência e responsabilidade contínuas. Não é, de forma alguma, um trajeto que agrada aos indolentes, maliciosos e desonestos."

   PRECEPTORES

Da ordem instrutiva com abrangência de fomento religioso, originam-se sortidas entidades, radicadas sob as mais diversas homilias; onde em cada uma destas, desde as mais concorridas às de menor expressão, expedidas lhes são dialéticas estatutárias referendando-lhes a cetro de perfectibilidade exemplar.   
A nenhum adepto -seja de elevado escalão ou participante comum- tolerado lhe é transigir com noção perceptiva manifestando-se em contraponto àquilo pre-estabelecido pela ordem ou corrente o qual dispôs- se seguir; indolente à razões, deferências, obviedades; ou qualquer outro modo dirigível ao esclarecimento, mesmo sinalizado este por demonstrativos de autenticidade. Desta mórbida esfera comportamental fertiliza-se os ciclotímicos fundamentalismos.

[Quando os moderadores da informação tomam partido prévio, deixam de atuar como agentes informativos para se converterem em influenciadores proselitistas. E quando o público se permite abdicar do crivo crítico — terceirizando a própria razão —, acaba por render-se a essa contaminação ideológica, passando a integrar a passividade cega característica das massas de manobra: os chamados idiotas úteis.]                                Convém salientar que toda essa engrenagem voltada a enredar a percepção humana não prospera apenas pelo apelo à dimensão subjetiva — às inclinações inerentes à psique. Ela deriva, sobretudo, de facciosismos que atuam no mundo por meio de novos mecanismos de influência. Esses mecanismos dão margem ao radicalismo de um tecnicismo narcísico, alimentado pela supervalorização da própria inteligência diante de problemas complexos. Disso resultam mentes petrificadas e obsessivamente presas ao materialismo; e assim, com visões de mundo desalinhadas de sua real natureza, o fato concreto passa a ser remanejado ao sabor de interesses particulares.          Deve-se levar em conta uma dinâmica da mente em que o polo sensorial exerce forte regência sobre os impulsos; contudo, o seu oposto — o esvaziamento, o entorpecimento e a rigidez psíquica — também pode assumir uma posição dominante e opressiva.

No âmbito religioso, cujas normas morais exercem profunda influência sobre o íntimo humano, a doutrinação converteu-se em uma força pedagógica voltada a cercear o livre-pensar. Entre outros instrumentos de controle, essas articulações lançaram sombras ameaçadoras sobre a capacidade de discernimento e a autonomia da consciência.

Conclui-se, portanto, que as inclinações da alma não constituem a única via de formação da mentalidade. O alinhamento a um pragmatismo legalista, literalista e imediatista — quando elevado ao absoluto — inverte valores e isola a dimensão suprasensível da mente. Esse desvio passa a atuar como referência central, moldando personalidades biônicas: indivíduos formalistas até o ponto da aberração e do delito, cujas bases afetivas e sensíveis foram completamente aniquiladas.

 A formação de um ser equilibrado não pode estar alicerçada exclusivamente em um único vetor — seja ele metafísico, matemático ou tecnocrático —, fixando-se de modo estrito no espiritualismo, no calculismo ou no materialismo. É justamente desse desequilíbrio que se nutrem o fanatismo, o ceticismo e o negacionismo, alimentando a atmosfera da tolice. Toda lógica autêntica se constitui do arranjo dessas diferentes dimensões, testadas e aplicadas na prática empírica.                                                    

APRENDIZES

Não nos permitamos jamais coadunar com a estima comum onde palavras são aferidas ao condicionante do mero palavreado.    Recaem sobre enunciações solene encargo, em especial aquelas capazes de gerar estímulos e impulsos mais profundos na pessoa dos seus ouvintes.      Por ser os pronunciamentos eficaz formador de consciência, cabe ao declarante sua utilização e aplicação regrada sob normas de critério e supervisionado siso. "Em uma época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário" (George Orwell)

Já dizia Raul Seixas: “Cada mente é um universo”                                                                    A egolatria impele o ser humano ao confronto contra a razão e a plausibilidade, exigindo constante vigilância. Sob a ilusão da infalibilidade, estabelecem-se dogmas irredutíveis em claro detrimento da realidade fática. Essa postura, construída sobre uma percepção sensorial rígida, resulta inevitavelmente na anulação da prudência. Uma vez capturados pela autoadmiração em seu labirinto de espelhos, os indivíduos insurgem-se contra a limitação intrínseca da condição humana — a qual demanda o aperfeiçoamento contínuo do intelecto, da conduta e da consciência. Alimentados por uma megalomania contumaz, utilizam a soberba como defesa para se declararem imunes a críticas e conselhos, esquivando-se do progresso pessoal como se fossem superiores a sua real natureza.

O orgulho nada mais é do que uma sutil fragilidade na autoafirmação e na consciência de quem se defronta com valores além do alcance de sua própria mediocridade. Ele se ergue como uma reação de defesa quando confrontado com virtudes superiores às suas próprias convicções   — virtudes que exigiriam, para serem alcançadas, a resignação e o esforço de uma transformação interior.                             A essência humana comporta uma natureza originalmente selvagem. Exige-se, portanto, um constante trabalho de disciplina e contenção para evitar que a própria mente se volte contra o indivíduo, convertendo-o em seu mais perigoso adversário.   Se os homens parassem para ponderar sobre sua real posição                  — suspensos sobre uma massa ígnea de temperaturas insuportáveis, da qual estão separados apenas por uma frágil crosta —, talvez mudassem de atitude. Afinal, essa estrutura de sextilhões de toneladas paira no vazio e se desloca a uma velocidade vertiginosa pelo espaço infinito, onde o menor abalo os pulverizaria num instante. Se vissem isso, por certo repensariam seus julgamentos de superioridade e se recolheriam à sua verdadeira insignificância.                                                    Somos passageiros de um trem do qual, em determinada estação, seremos compulsoriamente desembarcados, sem qualquer possibilidade de prosseguir viagem — ainda que esse seja o nosso mais ardente desejo. ​No entanto, insistimos em nos aventurar por um campo minado, julgando-nos senhores e juízes de tudo, sem sequer sermos capazes de governar o nosso próprio amanhã.


A MECÂNICA  DO PENSAMENTO 

Existe um binômio conceitual indissociável das práticas cotidianas que concretizam a vida — instaurado pelo funcionamento de mecanismos de ordem cerebral. Ele se manifesta desde os primórdios na relação entre a mente consciente e a subconsciente.

Na mente consciente qualificam-se raciocínio e memória de curto prazo. É onde se julga, critica; tomam-se decisões; onde surgem planos e análises. Parte representando cerca de 10% no montante da capacidade do cérebro.

Mas existe muito para além disso; exatamente no lugar em que se encontra a poderosa e fascinante mente subconsciente. Este segundo seguimento também corresponde a extensões vitais e involuntárias do corpo, como respiração e digestão. Daqui brota a tão valiosa criatividade e reside a memória de longo prazo: Os hábitos; os padrões de comportamento e as crenças mais profundas que se carregam.

A partir desse privativo surgem as emoções e os sentimentos, também as coisas mais extraordinárias como a conexão espiritual, a intuição e a verdadeira sabedoria.                        A mente subconsciente é sem dúvida misteriosa e carregada de poderes sobremodo elevados.  A despeito da ausência de dados estatísticos específicos, eventos correlatos evidenciam que o emprego conjugado dessas faculdades ocorre de forma bastante reduzida. É frequente observar trajetórias humanas limitadas a uma fração diminuta das capacidades intelectuais, em detrimento de suas dimensões mais elevadas.      Uma analogia simples ajuda a entender esse processo: a mente consciente é o jardineiro; o subconsciente, o jardim. O jardineiro lança as sementes através dos seus pensamentos, conscientes ou involuntários. O ponto central é que o subconsciente age como um solo fértil: ele acolhe cada semente e faz brotar exatamente o que ali foi semeado, seja uma flor ou uma erva daninha. O solo é indiferente à natureza daquilo que nele brota. Cabe ao semeador determinar a qualidade do plantio: sementes sadias redundam em uma colheita virtuosa; sementes nocivas, por sua vez, geram frutos de igual degradação.  

É evidente o caráter multilateral da relação de causa e efeito nas dinâmicas da vida: tudo se inicia na mensagem recebida, desdobra-se em sua assimilação no íntimo e culmina na conduta do indivíduo.

Pensamentos negativos esvaziam expectativas; o rancor incita a violência; a complacência naturaliza maus hábitos; a lubricidade corrói a conduta moral. Em contrapartida, cognições altruístas opõem-se a práticas egoístas, enquanto pensamentos afetivos revigoram o psiquismo, possuindo comprovada eficácia terapêutica.

Observa-se que o pensamento é a gênese do comportamento, sem que isso o torne um processo involuntário ou incontrolável.Trata-se de um fenômeno manipulável, passível de gestão pelo indivíduo. Por integrar uma complexa rede de causalidades, o pensamento figura simultaneamente como causa e subproduto, condicionado por variáveis externas e internas.                                             Uma imagem capturada pelo olhar é transmitida ao cérebro e decodificada por duas vias distintas. Surge aí o dilema: é o sentimento que origina o pensamento ou o pensamento que produz o sentimento? Afinal, qual deles se manifesta primeiro?​Não se pode negar que toda conclusão resulta de uma impressão. Se uma imagem for submetida a critérios abstratos e desprovidos de valor afetivo, terá pouca relevância: como um estímulo dispensável, não provocará sensações nem gerará reflexões significativas. Por outro lado, sob um olhar cognitivo mais amplo e atento às suas singularidades, essa mesma imagem é capaz de causar impressões profundas, movendo o indivíduo pela compreensão de sua própria natureza.  O fluxo dos nossos pensamentos depende da atenção que damos a uma cena e das emoções que ela desperta. Olhar para algo sem um engajamento real é um processo incompleto. Quando isso acontece, deixamos de agir de forma consciente e passamos a reagir no piloto automático aos estímulos ao redor.         Por isso, qualquer experiência                              —presenciada ou lembrada— admite diferentes saídas. Ao mudar a perspectiva, mudam-se as percepções e as conclusões, definindo diretamente as atitudes que tomaremos a partir delas.            


A MAQUINARIA DO CÉREBRO E O SENSO DAS RESPONSABILIDADES 

Como partes integrantes da magnífica complexidade do universo, possuímos um papel singular, acompanhado de direitos e deveres em relação ao todo. Para corresponder a essa posição, dispomos de recursos cerebrais capazes de expandir nossa capacidade de investigação. Quando utilizados em plenitude, esses recursos nos permitem enxergar "por trás das cortinas" e compreender os bastidores da realidade, capacitando o investigador a responder com cada vez mais profundidade às exigências do próprio universo.      ​Sem dúvida, para todo ser humano, a busca mais valiosa é aquela capaz de revelar com clareza o real propósito da sua existência. Diante da imensidão organizada do universo — do qual a humanidade é parte concreta —, os indivíduos apequenam-se justamente pela limitação da forma e da intensidade com que tentam compreendê-lo. Desvendar esse propósito permitiria ao homem perceber sua exata localização nessa teia infalível que o conecta ao todo.       As mentes consciente e subconsciente são subjugadas a um estado de hibernação, sendo coagidas a se acuar no espaço limitado da zona de conforto — o que compromete severamente a sua eficácia.            Os reflexos de tais barreiras, ao bloquearem as reações introspectivas, manifestam-se em comportamentos desalinhados, típicos de quem teve exaurido o exercício de faculdades que deveriam estar à altura da excelência de sua própria existência.

Se observarmos os acontecimentos cotidianos de uma sociedade que se intitula pós-moderna, intelectualizada e tecnologicamente avançada, somos tomados pelo assombro diante de vívidas constatações. Como é possível que tamanhos arroubos de irracionalidade continuem a se perpetuar da forma como vemos? Como chegamos a este ponto? Qual é a causa raiz da nossa incapacidade de conviver e cooperar? Parece quase impossível alcançar um consenso para construir um sistema justo, que inclua e beneficie a todos indistintamente. Afinal, onde está o resultado dos avanços dos quais tanto nos orgulhamos? Nossos recursos estão sendo mal investidos ou nossa engenhosidade é, na prática, ineficaz?

​Parece inconcebível descrever uma sociedade de seres teoricamente inteligentes em que, enquanto uns perecem assolados pela fome e pelo frio, outros se regalam em fartura e supérflua abastança; onde os mais fortes pisoteiam os mais fracos e se incentiva uma mentalidade alinhada a atitudes destrutivas contra o próprio meio em que vivem — o lar que abriga os recursos indispensáveis à sua subsistência. Uma descrição como essa deveria parecer destituída de qualquer sentido. ​Infelizmente, tais evidências confirmam a nossa realidade presente e nos levam a questionar o que de fato está acontecendo com a humanidade.                                                      Vivemos tempos    verdadeiramente estranhos, nos quais a ilusão constrói um sistema social autodestrutivo que não é reconhecido como tal, justamente pelo disfarce sedutor com que se articula, deslumbrando as suas próprias vítimas.         

O sentido da vida: uma expressão simples na forma e breve nas palavras, mas que define por inteiro a trajetória de toda e qualquer história vivida neste plano existencial. A maneira como o indivíduo assimila, compreende e conduz essa questão está intimamente ligada ao seu modo de ser, refletindo-se diretamente no comportamento da sociedade como um todo. O desconhecimento, a ausência ou a confusão acerca das razões e dos rumos da existência tornam-se, assim, geradores de desordem comportamental em seres pensantes           — independentemente de classe social, raça ou cultura.

Dedicamos este capítulo quase integralmente ao tema da "informação", por reconhecermos a sua absoluta centralidade. Embora a humanidade raramente se dê conta disso e muitas vezes o reduza à insignificância, reitera-se: somos o reflexo exato daquilo que pensamos. ​No centro da nossa construção como seres humanos, somos ininterruptamente atravessados por todo tipo de informação que pulsa ao nosso redor. Nós a captamos, absorvemos e assimilamos, permitindo que ela determine nossas intenções e objetivos. Somos aquilo que lemos, ouvimos e assistimos; somos as pessoas com quem convivemos e as escolhas que fazemos​O impacto de qualquer informação pode ser direcionado tanto para o bem quanto para o mal; para o nosso crescimento ou para o nosso malogro; para a nossa elevação como seres sábios ou para a nossa decadência como indivíduos alienados da realidade. Eis aqui razões mais que justificadas para dedicarmos um capítulo inteiro a essa reflexão.                                                  Lógica (do grego logikê, derivado de logos: razão, palavra ou discurso) é a ciência do raciocínio. Como ramo da filosofia, ela estuda as formas do pensamento — como dedução, indução, hipótese e inferência — e as operações intelectuais necessárias para determinar o que é verdadeiro.                                                               Na prática de desvendar paradoxos, a análise criteriosa exige impessoalidade. Essa objetividade é essencial para que o raciocínio se mantenha dinâmico, livre de vieses e capaz de gerar conclusões fundamentadas.                          A busca por inferências legítimas exige neutralidade ampla e irrestrita, essencial para conter a constante suscetibilidade do espírito humano a inclinações pessoais.​Tal postura demanda árdua disciplina no recondicionamento das funções conscientes e subconscientes da mente, bem como um compromisso inabalável com o entendimento efetivo do tema submetido à investigação.     ​Ponderar sobre a relevância e os propósitos da existência exige o pleno equilíbrio da nossa capacidade de discernir. Para que essa busca seja frutífera, é preciso afastar preconceitos e preferências pessoais que contaminem a análise dos fatos. Ao investigarmos suas causas e finalidade com rigorosa isenção, não apenas encontramos respostas consistentes, mas também descobrimos como traduzir esse entendimento em ações práticas e positivas.                         

A preciosidade da vida está em fazer de cada segundo um aprendizado. Conhecê-la por meio de suas experiências é uma missão delegada a todos que dela usufruem. Nela se encontram desígnios essenciais e intrínsecos, dos quais jamais se pode abdicar. Uma dessas grandes exigências diz respeito à necessidade fundamental de preservar a nutrição e a higiene do corpo. Contudo, a função de máxima amplitude aponta para o dever supremo de alimentar o intelecto de forma saudável e abundante, mantendo-o incontaminado e ativo.  Todos nascemos investidos de três formidáveis prerrogativas: uma mente, um corpo e um espaço no tempo. Elas devem ser administradas em conjunto na desenvoltura caracterizada pelo viver. Ninguém vem a este mundo apenas para ocupar espaço; cabe a cada um descobrir a sua própria finalidade.                                               Para enriquecer nosso amadurecimento intelectual, buscamos sabedoria em diversas fontes, sem preconceitos, incorporando esses aprendizados às reflexões desta obra.​As grandes contradições da existência continuam a nos desafiar. Por isso, utilizamos todos os recursos disponíveis para encontrar respostas claras e profundas.                                                                   O objetivo principal deste livro é examinar como o sentido da vida se manifesta em diferentes pilares: 

No matrimônio e na família: o papel do cônjuge na convivência lar.                                 ​                 Na relação parental: a dinâmica recíproca entre pais e filhos.                                                               Na esfera profissional: as necessidades e os propósitos que orientam o trabalho.   ​                 Na gestão pessoal: a responsabilidade do indivíduo com a saúde de seu corpo e de sua mente.                          ​                                              Na existência cosmológica: o ser humano perante as leis austeras do universo que o acolhe;                                                                      Nas relações humanas: o indivíduo concreto em busca de vínculos com o abstrato;                Na condição temporal: a finitude humana diante de mistérios que ultrapassam as eras.

"É necessário fazer outras perguntas, ir atrás das indagações que produzem o novo saber, observar com outros olhares através da história pessoal e coletiva, evitando a empáfia daqueles e daquelas que supõem já estar de posse do conhecimento e da certeza"  (Mario Sergio Cortella) Filósofo e professor brasileiro. 

                                                                                  FOMENTADORES DE SENSO COMUM

O conflito travado entre a filosofia e a ciência deveria ser repudiado como um retrocesso sem precedentes, sobretudo por ser movido por posições meramente pessoais. Não há como enxergar tal postura de outra forma.                         Por trás desse imbróglio, disputa de forças, transparece uma vaidade narcísica e prepotente que pleiteia o monopólio do saber, renunciando ao uso coerente da razão na busca insensata de desconstruir o outro. Seus defensores ignoram a nobre missão para a qual ambas nasceram: servir de alicerce para a elevação humana, promovendo o conhecimento sobre si e sobre o mundo, de modo a aprimorar  constantemente nossa condição social. No entanto, tão valioso propósito, maculado na origem pelo predomínio de interesses particulares, teve seu efeito invertido. Em vez de guiar, a sabedoria viu-se desarticulada, deixando à humanidade apenas destroços dispersos em meio a um turbilhão de incertezas.

O senso crítico apoia-se no conhecimento fundamentado pela reflexão, pelo rigor analítico e pela pesquisa. Em contrapartida, o senso comum propaga-se mediante noções superficiais e modos parciais de pensar, compartilhados pela maioria da população. Trata-se de um acervo de crenças e tradições populares que, ao serem replicadas, passam a ser aceitas como verdades  incontestáveis, perpetuando, por vezes, uma herança cultural retrógrada e prejudicial.​Aproveitando-se dessa vulnerabilidade, segmentos de diversas vertentes recorrem a retóricas maliciosamente articuladas para capturar a simpatia do público. Ao parasitar mentes e moldar o imaginário coletivo, tais discursos acabam por favorecer, em última análise, apenas os interesses de grupos específicos. É precisamente nesse ponto que entra em execução a segunda engrenagem da indústria da desinformação: a conversão da mentira em dividendos e obtenção de poder.  

O campo religioso contemporâneo passa por uma reorganização estrutural em que suas dinâmicas comunitárias e discursivas foram progressivamente adaptadas para servir de ecossistema à atuação política.                              Ao instrumentalizar símbolos de fé, valores morais e redes de sociabilidade pré-existentes, os espaços de culto deixaram de ser exclusivamente esferas de transcendência e cuidado espiritual para se tornarem plataformas estratégicas de engajamento eleitoral e promoção ideológica.

​Essa aproximação não ocorre por acaso: o ambiente religioso oferece aos atores políticos um público altamente coeso, articulado por vínculos de confiança e pré-disposto à escuta. Quando líderes institucionais adotam narrativas alinhadas a pautas de poder, a adesão partidária passa a ser apresentada não como uma escolha pragmática, mas como um dever de consciência ou um desdobramento direto da identidade dogmática.

​Com isso, a política encontra no terreno da fé um terreno fértil para a sua própria expansão, diluindo as fronteiras entre a militância e o culto e transformando o capital comunitário das instituições religiosas em capital eleitoral direto.          

A essência fundamental da ciência — a busca desinteressada pelo saber, impulsionada pela pesquisa rigorosa e pela investigação sistemática — vem sofrendo uma profunda mutação estrutural. Historicamente orientada pela curiosidade intelectual e pelo compromisso com o bem público, a atividade científica foi gradativamente cooptada pela lógica de mercado. O ecossistema de produção do conhecimento, antes voltado para a expansão das fronteiras da compreensão humana, passou a ser reconfigurado em uma engrenagem subordinada aos imperativos corporativos, onde o rigor da investigação cede espaço à urgência do retorno financeiro.

​Nesse cenário, os vetores da pesquisa acadêmica deixam de ser definidos pelas necessidades sociais ou pelo avanço puramente teórico para responderem às exigências de rentabilidade de grandes conglomerados industriais.                      O financiamento privado e as parcerias corporativas, embora frequentemente apresentados como motores de inovação, frequentemente canalizam o esforço científico para nichos patenteáveis e produtos comercializáveis, marginalizando estudos de longo prazo ou áreas de interesse coletivo que não prometem lucros imediatos.

​A ciência, portanto, vê sua autonomia comprometida ao ser transformada em um mero insumo produtivo. Quando o valor da descoberta passa a ser medido prioritariamente pela sua capacidade de gerar capital, o espírito crítico da pesquisa corre o risco de ser substituído por uma eficiência pragmática, na qual a verdade científica deixa de ser um fim em si mesma para se tornar um ativo financeiro.

Raízes não são âncoras..."Na vida, nós devemos ter raízes, e não âncoras. Raiz alimenta, âncora imobiliza" Mario Sergio Cortella

É explícito existirem "laranjas podres" dentro de cada "balde", mas nem por isso precisamos nos deixar seduzir pelos seus motes capciosos.       Há poucos anos, com certo tom de autossuficiência, o saudoso Stephen Hawking sustentou em sua obra The Grand Design que a filosofia e a ideia de Deus haviam sido superadas pelas equações da física teórica. Reiterou essa posição obstinadamente, mesmo às vésperas de sua morte, em Brief Answers to the Big Questions, ao afirmar categoricamente que "não existe um Deus" e que "ninguém comanda o universo". O físico parece ter desconsiderado o impacto que tais declarações, vindas de um nome com sua projeção, causariam no debate público. Tais manifestações soam como a afirmação de um ego inacessível à própria vulnerabilidade física. Embora o estudo dos buracos negros                    — centro de seus incansáveis esforços — tenha um valor científico indiscutível, ele pouco contribuiu para a resolução dos problemas concretos enfrentados pela humanidade. Não se trata de desmerecer a relevância de suas teorias, mas de questionar por que mentes tão brilhantes raramente priorizam os dilemas urgentes da nossa sobrevivência imediata. ​Parece haver uma preferência por investir a criatividade humana em horizontes distantes, negligenciando as etapas fundamentais do presente. Se a busca por planetas habitáveis é motivada pelo colapso iminente da Terra, não seria mais coerente direcionar o saber científico para restaurar o mundo em que vivemos? Afinal, se não demonstrarmos competência para preservar nossa própria casa, o que nos garante que não repetiremos a mesma destruição em outro lugar?                                                                A história consagrou figuras célebres que se dedicaram à pesquisa em diversos campos, cujos esforços geraram avanços extraordinários para a humanidade. Causa estranheza, contudo, constatar que muitos desses pensadores enfrentaram uma oposição ferrenha ao trabalho que idealizaram.                                                 Torna-se impossível ignorar os malefícios de uma teologia embasada em aparências exteriores à alma — promovida por certas ordens religiosas e espalhada como verdadeira praga. Tais correntes aventuram-se na inversão de papeis entre as práticas terrenas e as esferas que transcendem nossa compreensão do tempo, degradando a dimensão racional do indivíduo, elemento tão primoroso para a evolução pessoal e coletiva. (Vale aqui uma ressalva categórica: o posicionamento desta obra não deve ser interpretado como oposição ou menosprezo à religião. Absolutamente. As contestações aqui apresentadas questionam, especificamente, o uso instrumental da fé em benefício de interesses particulares.  A essência original da religião combate qualquer juízo de valor que hierarquize as formas de vida. Portanto, toda visão religiosa que não tome o respeito incondicional aos direitos fundamentais como premissa indispensável para um proceder virtuoso deve ser denunciada como espúria. Não se sugere que o devoto fuja aos seus princípios ou seja condescendente com o erro em nome de um mero consenso; contudo, o espírito segregador não cabe àquele que se propõe a ser um agente de paz e unificação. A liberdade de crer e defender uma causa deve ser irrevogável na construção de uma sociedade livre e ordeira. A democracia, em seu sentido pleno, nada mais é do que o ambiente que assegura o livre funcionamento da vontade individual. Em um regime democrático, o religioso tem o direito de dirigir-se a quem considera desviado, desde que haja o consentimento do interlocutor — jamais de forma compulsória ou discriminatória. Este é, afinal, o exemplo deixado pelo maior entre todos os pedagogos da história: Jesus Cristo.)                  

E assim têm procedido os homens responsáveis pelo lapidar do saber científico e filosófico: distorcem o nobre ofício e as obrigações que lhes foram designadas. Enquanto investidos no ilustre papel de "endireitar caminhos" para a humanidade, cederam a uma disposição transviada, conduzindo-a pelas trilhas tortuosas de antigos bezerros   — atalhos que começam no incerto e fatalmente conduzem ao mesmo destino trágico.                                            Interpõem-se nas atribuições de uma e outra esfera, gerando confusão e atropelos quando, em sadio congraçamento pelo bem, deveriam tutelar o homem por dentro e por fora, estendendo os benefícios da busca pelo conhecimento a todos os habitantes deste planeta. O conhecimento englobando os objetivos da verdadeira fé aproxima o homem da ciência, enquanto o conhecimento que compõe a verdadeira ciência compenetra o homem na fé. Como bem sintetizou Albert Einstein: "A ciência sem a religião é manca; a religião sem a ciência é cega".                              ​    A solene realidade   — que deveria constrangê-los à abnegação — ensina que as leis do campo metafísico e do matemático caminham de mãos dadas no universo, revelando a ordem pela qual a própria criação nos confidencia quem realisticamente Ele é. Ignorar tal fato implica desvirtuar o discernimento daqueles que observam o cenário imbuídos do desejo de compreendê-lo. É o que ocorre na arregimentação científica: ao buscar entender as imensuráveis singularidades do cosmo e a complexidade da vida, os cientistas se deparam com barreiras intransponíveis apenas com dados aritméticos, quando desprovidos da plataforma filosófica. O resultado é o "estrangulamento" da verdade por meio de teorias ambíguas.(Convenhamos que, ao mencionar a filosofia, não nos referimos apenas à disciplina acadêmica formal, mas a toda investigação que sonda os fatos pelo abarcamento de sua lógica. Acredita-se que todo pensamento concreto seja importante, mas ele deve estar sempre fundamentado na predisposição à visão abstrata).                            No campo do saber espiritualista, o crescimento da erudição sofre de manobras semelhantes. Da forma como tem sido conduzido, esse afazer limita-se a povoar o imaginário com divindades pertencentes a dimensões desconectadas da realidade, enclausurando a fé em lendas devocionais e abrindo espaço para a fabricação de incontáveis "deuses".   

O Deus ensinado por grande parcela da cristandade — que Se declara uma entidade pessoal e criadora do plano tangível — é frequentemente representado de forma contraditória: uma mistura de inteligência soberana com um curso sem regras; uma espécie de entidade virtual pensante, composta de ar ou de matérias imaginárias concebidas para justificá-Lo. No entanto, Esse mesmo Criador aplicou tabelas químicas e equações aritméticas para estruturar um cosmos absolutamente palpável, o que desmente tais visões. Por conta dessa deturpação, Sua imagem acaba se confundindo com mitologias antigas e contemporâneas, nas quais se divide a matéria e a energia para formular dogmatismos que alimentam vertentes panteístas — gerando o pensamento de que existe um deus em cada elemento da natureza. Embora ninguém jamais tenha especificado a estrutura exata do corpo divino, ao observarmos a criação sob o prisma da lógica imparcial e das alusões bíblicas, conclui-se que Ele é um organismo pessoal. Identificado de alguma maneira com a matriz da formatação humana, possui atributos de um indivíduo consciente, capaz de emoções e com propósitos definidos em Seu proceder.             Contudo, em meio a essa enxurrada de sofismas perniciosos, as pessoas são lançadas cada vez mais longe da consciência sobre seu verdadeiro papel: o de peças intencionalmente calculadas para compor este portentoso edifício coletivo chamado existência.


A SITUAÇÃO ATUAL DA HUMANIDADE        

Talvez jamais tenha havido, na história deste mundo, uma fase em que a fidedigna percepção sobre a nossa realidade se fizesse tão necessária. É preciso entendermos quem de fato somos em nosso âmbito interior; conhecer-nos mais profundamente para que, a partir desse marco zero, possamos conduzir um gradual aprimoramento de nosso perfil individual.​Todo processo de formação humana, para alcançar eficiência em sua prática, deve partir de dentro para fora — jamais o contrário. Ninguém conseguirá edificar seu pilar íntimo amparando-se apenas naquilo que é dimensionado pela aparência exterior, como se planejasse um logotipo para referenciar o conteúdo de uma embalagem. Isto pode funcionar para produtos, mas não para seres humanos.

Vivemos dias em que, pela atuação de um sistema sutilmente instaurado no seio da sociedade por governanças ardilosas, a ansiedade impera devastando mentes oscilantes. Nesse cenário, a capacidade e a destreza no manuseio das próprias frustrações tornam-se conquistas de valor inestimável perante os demais embates da vida.                        As funcionalidades propiciadas pela revolução tecnológica moderna infundiriam significativa utilidade social caso tivessem sido idealizadas para além do retorno financeiro focado no lucro exclusivo de seus fabricantes. Alcançar tais recursos, em conformidade com as necessidades basilares, possui inequívoca relevância para o bem-estar terreno; entretanto, esses meios exigem regras cabíveis de uso, pautadas pela moderação e pelo devido lugar que ocupam em uma escala de prioridades. Não se pode ignorar a aceleração crescente nos transportes e nas telecomunicações, por exemplo, em comparação com décadas passadas.   Contudo, tudo carrega seus riscos. Os artificialismos                                    — metamorfoseados de necessidades suplementares em ideais absolutos e tornados prioridade máxima no anseio das pessoas — instilam na sociedade patologias mentais de toda ordem. É comprovável que absolutamente tudo o que existe, quando extrapolado de sua ordem natural ou desvirtuado de sua essência, traz consigo efeitos colaterais com danos frequentemente irreversíveis.                               Os alimentos industrializados são uma prova clara disso.(Não se tome a retórica aqui tecida como uma manifestação contrária ao avanço tecnológico, nem como uma sugestão para que nos comportemos como eremitas. Explicitamos simplesmente a dualidade inerente ao contexto: embora o avanço permita dar a volta ao mundo em pouquíssimas horas, a extinção completa da humanidade também acabou reduzida ao simples clique de um botão. Este é o grande paradoxo da engenharia moderna que aqui salientamos em seus prós e contras).              

O desenfreado delírio por um comportamento moldado por padrões postiços e comercializáveis gera estereótipos cuja aparência não condiz com uma realidade econômica favorável, tampouco com uma estrutura emocional e física capacitada para suportar tamanha carga. O alto custo financeiro despendido na aquisição e manutenção desses estilos de vida afunda os indivíduos em uma ansiedade maquiavélica. Além do desgaste econômico, os artefatos da modernidade estimulam um preciosismo doentio que transforma o próximo em um concorrente a ser ferrenhamente combatido, acarretando ainda maiores flagelos a uma sociedade já em frangalhos.                    

A institucionalização do ego, a idolatria cultuada às formas corporais e os lazeres exacerbados e alienantes, a despeito de suas graves consequências, tornaram-se a instrução dominante lançada às mentes por este sistema.      Extirpa-se do cotidiano o valor da simplicidade, da modéstia, do recato, da dignidade e da honra, promovendo uma esmagadora inversão de valores e alimentando a indolência do coração. Tornou-se praxe banal atribuir moralidade aos imorais, prudência aos incautos e serenidade ao conflito.

Contudo, uma mentalidade equilibrada é o que frutifica a verdadeira paz.                                      As palavras daqueles que apontam a existência de multidões cujas expectativas não ultrapassam o "comer, defecar e dormir", para além da linguagem cínica, revelam um cenário que expõe essa faceta cruel da realidade.              A humanidade sofre graves transtornos de ordem anímica nas mais variadas instâncias. Cai em desuso o salutífero deleite das inter-relações humanas enquanto esmorecem os princípios fraternais, impulsionando pessoas a enveredarem no tenebroso vácuo de uma vida sem rumo, pagando com lágrimas as dores desse caminho.       

Estatisticamente, a depressão encabeça a lista das doenças que mais flagelam e matam no mundo. Este mal se robustece na fragmentação das perspectivas de futuro, resultado de frustrações mal resolvidas nas mais diversas esferas. Convivemos no centro de uma severa crise de identidade, alimentada por um extenso conjunto de fatores em que o foco de atração margeia o surreal. ​As pessoas são alheadas daquilo que de fato acontece ao seu lado por uma vasta lista de determinantes. Entre eles, destacam-se narrativas que, sob o pretexto de cultura, são embutidas em contos e romances cujo desfecho invariavelmente transforma o protagonista em um herói que vence tudo e a todos — algo que, no mundo real, não funciona dessa maneira. A vida não é composta exclusivamente de triunfos, e não devemos pensar que apenas a vitória nos dignifica. Há honra e aprendizado nos contratempos, desde que encaremos nossos malogros com galhardia. Igualmente vitorioso é aquele que supera seus próprios insucessos, admitindo-os como probabilidades inerentes a qualquer jornada.    A inflexibilidade de uma glória arrogante é um veneno lento, porém mortífero.

Revistas e mídias dedicadas à celebração de celebridades romantizam o glamour, o status e a fama como prêmios supremos da vida, fazendo a modéstia parecer desprovida de atrativo e empalidecendo o apreço por quem vive de forma simples. A pessoa que converte alguém em ícone baseando-se unicamente em sua visibilidade impõe ao próprio pensamento o divagar pelas ilusões. 

Atingimos o estágio em que anúncios publicitários necessitam de silhuetas apelativas para despertar atenção, recorrendo a conteúdos fúteis que refletem a própria infantilização do público-alvo.

​Aparelhos tecnológicos de entretenimento, ao sequestrarem o tempo útil dos usuários, sentenciam-nos aos delírios fomentados por jogos e leviandades digitais. 

Penteados extravagantes, modismos inusitados, grifes supervalorizadas apenas pelo rótulo, piercings, tatuagens e ritmos que fazem apologia à licenciosidade induzem o pensamento a exilar-se em um mundo lúdico, desconectado do factual.

Os pais modernos pecam ao concederem à prole a satisfação desregrada de seus desejos, sem a imposição de limites claros. Inexiste zelo quanto ao que é assimilado por crianças e adolescentes, permitindo que sejam introduzidos em um labirinto incompatível com uma formação equilibrada. Muitos jovens são criados como plantas à sombra: ao receberem os primeiros raios solares mais intensos, murcham e secam quase de imediato. O número avassalador e crescente de suicídios — ceifando vítimas de todas as idades, em especial os jovens — possui relação direta com esse modelo de vida.                     ​Quando ocorre o choque de realidade    — quando a pessoa é despertada para o incontestável e descobre que a vida real não se compara ao mar de rosas cultivado em seu imaginário —, ela entra em colapso. O indivíduo sem orientação prévia, ao experimentar o dissabor das adversidades, tende a recuar e se desestabilizar. O sentimento de impotência diante dos obstáculos desequilibra a balança da sanidade, fazendo-a pender para o lado obscuro da existência.

É imperioso que os educadores norteiem seus vocacionados quanto às propostas ilusórias deste sistema. Que saibam quão tênue é a linha entre a honradez e a degradação moral. É desta última que emergem indivíduos movidos por ódio, insensibilidade e corrupção, estabelecendo para si uma lei calcada na malícia e na força bruta, onde o outro precisa ser aniquilado para que eles sobressaiam.

A base harmônica da família, o respeito ao semelhante e a afinidade com o meio ambiente — predicados enobrecedores em si mesmos — estão sendo drástica e perigosamente lançados à insignificância. A percepção sobre o real sentido da vida distanciou-se do cotidiano das grandes massas, que, anestesiadas por distrações contínuas, são compelidas a uma mediocridade comportamental cada vez mais profunda. "Entre o sábio e o ignorante a diferença é a mesma entre um vivo e um cadáver"  (Aristóteles) 

​A violência urbana, a criminalidade desenfreada, os vícios que destroem a juventude e a degradação do caráter são flagelos que açoitam uma sociedade cujo propósito original deveria ser a busca pelo bem-estar coletivo. No entanto, esses males não surgem por acaso: são frutos diretos de uma cultura alimentada por interesses perversos. Para manter as massas sob controle, as elites obscurecem a capacidade crítica do indivíduo. Afinal, quanto menos a população reflete, mais fácil se torna dominá-la — lembrando a famosa máxima atribuída a Dostoiévski de que a melhor forma de aprisionar alguém é fazer com que a pessoa nem perceba que está na prisão.

Operando nas sombras, esse sistema impõe uma falsa ideia de progresso enquanto reduz o livre-arbítrio à inoperância. É uma engrenagem que fecha todas as saídas: ou o indivíduo se curva às regras do conglomerado ou é marginalizado. O consumo torna-se compulsório para a sobrevivência, e a obrigação de acompanhar a evolução tecnológica transforma qualquer um que hesite em alguém "ultrapassado". Por trás desse discurso de avanço contínuo, porém, oculta-se o benefício exclusivo de um grupo privilegiado.

Por mais úteis que sejam as facilidades da vida moderna, não podemos permitir que elas absorvam nossa existência por completo. É preciso resgatar momentos de contato com a essência humana e com a natureza            — andar descalço na relva, respirar ar puro, buscar a simplicidade. Essas pausas nos reconectam às nossas raízes e devolvem o equilíbrio que o ritmo artificial da modernidade nos rouba.

​No cenário global, o planeta sucumbe enquanto as nações se digladiam por interesses econômicos mesquinhos.                 O ultranacionalismo foi manipulado para criar divisões, transformar cidadãos do mundo em rivais e consolidar uma estrutura de classes na qual os complexos industriais, farmacêuticos e políticos mantêm o poder absoluto, convertendo a soberania dos povos em dependência.

​O resultado dessa engrenagem                  — construída metodicamente ao longo do tempo — é uma humanidade adormecida, atemorizada e desprovida de sensibilidade. Para piorar, aqueles que deveriam guiar a sociedade em momentos de crise encontram-se trancados em suas próprias torres de marfim. Enquanto a religião e a ciência se atacam mutuamente em uma disputa arrogante de poder, a população perde as referências necessárias para construir um julgamento equilibrado e consciente.


COOPERAÇÃO PARA O BEM COMUM

Se ousássemos imaginar uma sistematização em que a cura do corpo estivesse associada à revitalização da alma  — não por regras indutivas que subjugam o livre-arbítrio, mas como um composto indispensável ao bem-estar do debilitado... Se ousássemos conceber a cura das moléstias da alma vinculada aos tratamentos do corpo — o que, de certa forma, revela a ação divina, visto que saúde do corpo e da alma são intrínsecas e se corroboram mutuamente —, que efeito extraordinário isso teria! ​"Isso é utopia!", replicariam muitos. Seria um mundo utópico? Talvez sim. Porém, toda mente consciente o avaliará como um ideal. Aliás, a própria natureza demonstra que, em essência, a realidade é assim. O modo como todo ser vivo nasce e morre evidencia a existência de um propósito maior: todos chegam nus à vida e, da mesma forma, nus se despedem dela. Sob essa perspectiva, por que não deveríamos julgar tal ideal possível? Se é possível, por que ainda não o realizamos? Não seria a ausência de boa vontade em conduzir as coisas segundo seus propósitos originais? Para erguer barreiras contra o primeiro campo mencionado, criaram-se entraves jurídicos sob a sombra de supostos códigos de ética. Já para a classe religiosa — que processa a fé de forma conveniente a si mesma —, o obstáculo ganha o disfarce da prevaricação dos dogmas que ela própria simula. Desobrigam-se da responsabilidade pelo modo conturbado como conduzem a saúde mental, espiritual e física dos povos, transferindo para causas puramente naturais as imperfeições que os acometem.  Ao atribuírem aos fatores hereditários a determinação final das deficiências orgânicas, sentenciam a natureza como um sistema falho e inoperante. O curioso é que bem poucos se prestam a notar a energia regenerativa nela embutida. Quando uma criança nasce com qualquer espécie de má-formação, onde reside a real origem do transtorno: na biologia ou nos hábitos de vida adotados por seus ascendentes? Precisamos nos desvencilhar da inclinação a transferir nossas responsabilidades a terceiros, camuflando as causas primárias dos problemas. Enquanto correntes religiosas incriminam Deus ou o diabo, a classe técnica apega-se ao congênito como único recurso explicativo. Os filhos herdam o DNA "deturpado" pelos pais e, consequentemente, sofrem suas consequências.       ​Criou-se no imaginário popular a ilusão de que as doenças são figuras disformes a vaguear pelas ruas, escolhendo vítimas ao acaso. Devemos compreender que as enfermidades, em sua maioria, são transtornos oportunistas que se valem de lacunas no organismo. Um sistema orgânico equilibrado é uma fortaleza praticamente impenetrável para vírus e bactérias; e tal estabilidade depende não apenas do corpo, mas também da alma — razão pela qual as esferas do saber científico e do espiritual deveriam tolerar-se e colaborar em prol do restabelecimento da humanidade.

​Já passa da hora de os detentores do saber se dedicarem à busca por soluções reais. Não podem continuar usando suas prerrogativas para "brincar de Deus". O planeta não suporta mais as manobras políticas a que foi subjugado. Os níveis extremos de poluição, a proliferação de enfermidades e a instabilidade climática são alimentados por artimanhas que seduzem as massas a agir contra si mesmas. A humanidade já não tolera uma religiosidade condensada em líderes espirituais que atuam como consultores financeiros, patrocinando o individualismo em detrimento do senso comunitário. Da mesma forma, torna-se insustentável que a formação de psicoterapeutas, neurologistas, sociólogos e nutricionistas receba menos atenção e investimento do que a formação estritamente tecnológica.

Se não houver uma mudança imediata na orientação acadêmica — que declinou de sua nobre incumbência para fomentar a seletividade —, não haverá tempo para reparar os danos. Seria insólito projetar uma casa feita de um único material; a construção perfeita notabiliza-se pela diversidade de elementos. Do mesmo modo, a educação, em vez de premiar a rivalidade em um globo capitalista já desproporcional, deveria priorizar cátedras voltadas ao consciente coletivo: mestres pautados por uma gestão democrática e inclusiva, conferindo valor aos papéis sociais. O paciente precisa do médico tanto quanto o médico depende do paciente e do laboratório. O lavrador carece do feirante, e este depende de quem planta para servir aos consumidores. Não somos criaturas isoladas; somos parte de um todo integrado.

Um senso de realidade lógico e imparcial revolucionaria o íntimo humano, revertendo a prevalência do exclusivismo enraizado na sociedade. Como engrenagens em harmonia, dependemos uns dos outros para o funcionamento de toda a engenharia existencial.

​Diante da questionação sobre como tais reflexões podem criticar instituições milenares, lançamos um desafio: oferecer ao leitor premissas para que sua cognição alcance o real sentido da existência. O objetivo não é subjugar ou direcionar seus desejos, mas dispor-lhe condições para que sobressaia como um indivíduo consciente, bem-resolvido quanto ao que pensa, acredita e realiza, fundamentado em pilares de justiça moral, social e espiritual.

​Precisamos aprender que nenhuma civilização pode ser forjada sob os grilhões da imposição. Cada elemento da cadeia existencial tem um papel a cumprir e deve ser respeitado por isso. Numa sociedade verdadeiramente humanitária e harmônica, o patrão não é superior ao colaborador, nem o colaborador ao patrão: cada qual possui seu valor dentro de sua função e sente-se honrado em exercê-la.


O REMÉDIO DO CONHECIMENTO DE DEUS

As pessoas querem saber o segredo do meu sorriso, da minha força, da minha fé. E querem saber de onde tiro as palavras, de onde tiro tanto amor; onde achei a receita para aceitar os problemas com felicidade. Então respondo: Em Deus” (Padre Fábio de Melo)

“As pessoas querem saber o segredo do meu sorriso, da minha força, da minha fé. E querem saber de onde tiro as palavras, de onde tiro tanto amor; onde achei a receita para aceitar os problemas com felicidade. Então respondo: Em Deus.” — Padre Fábio de Melo


​O que é fé?

​Quanto aos elementos que compõem a disposição mental chamada fé, seria correto reduzi-la a mero fruto do imaginário humano     — um sintoma nascido de nossas carências ou da influência de terceiros? Ou, em um desvio ainda mais grave, seria a fé um balcão de negócios com instâncias superiores, impulsionado por um ativismo religioso malicioso? Essa visão deturpada lança a mente ao seu estado mais nocivo: a desconexão com o propósito real da existência. Afinal, sem esperança, a vida se torna um movimento à deriva. Ninguém tem a garantia absoluta de que acordará amanhã; ainda assim, programamos o alarme para a manhã seguinte. Exclua da experiência humana o condutor metafísico, e a vida atrofiará como um músculo sem exercício.

​Ponderemos a situação por partes.

​Se aceitarmos a ideia de que nossa ancestralidade se reduz a uma forma de vida primitiva e sem inteligência no passado — proposta vinda daqueles que se opõem à fé —, o que seríamos nós hoje diante da tríade tempo, matéria e energia? Em que estágio da escala evolutiva nos encontraríamos e quais seriam os marcos de cada etapa?

​Perante a hegemonia de um universo regido por leis precisas, no que nos tornamos e no que se tornará nossa posteridade? Que importância teria o legado que construímos se não houvesse integração com a totalidade da existência?

​Afinal, para que existimos? Para viver setenta anos em meio a lutas, sem raízes, frutos ou flores, sem origem nem destino, e depois desaparecer como se nunca tivéssemos existido? Se for assim, de que serve o conhecimento buscado com tanto ardor? Por que almejá-lo, se ele não perpetuará benefícios para a sociedade presente nem para as futuras gerações?

​Além disso, ao admitir que o relacionamento com o Divino se resuma a uma troca de favores pessoais, não estaríamos transformando a fé no arcabouço do individualismo dentro de uma realidade que é coletiva?

​Qual deve ser o fiel da balança: o poder transformador da fé voltado ao bem comum ou a busca egoísta onde apenas o "eu" importa?            Qual dessas visões representa o verdadeiro cristianismo: o sacrifício de Jesus, que nos convida a crer e a integrar um Reino participativo, ou o uso da religião como um mero cumprimento legalista e formal?

​Ambas as distorções convergem para o mesmo resultado: um barco sem remos nem velas em um mar revoltoso. Que esperança de salvação nos resta? 

Qualquer estrutura pautada no meritocrismo promoverá o individualismo, a competição e a disparidade. Por mais que tentem rebaixar a fé a esse patamar, ela não é um produto voltado apenas ao proveito próprio.

​As maiores lições sobre a verdadeira fé vêm do exemplo de Jesus. Sua vida teve como prioridade a transmissão do bem que, enraizado no indivíduo, transforma o ambiente ao seu redor. A empatia e a bondade irradiavam de seu olhar, e o tom de sua voz encantava os ouvintes. Ele compreendia as fragilidades humanas e prontificava-se a acolhê-las, esvaziando-se de si em favor do outro.

​Seus ensinamentos ecoavam no coração das pessoas por três razões fundamentais:

  1. ​Eram conexos com a realidade e as necessidades humanas;
  2. ​Estavam alinhados com a sua própria conduta;
  3. ​Eram embasados naquilo em que seus ouvintes já criam.

​Isso é fundamental: compreender aquilo em que se crê.

​Portanto, a fé não é um ornamento decorativo nem uma alienação da realidade. É uma força invisível que se concretiza a partir dos apelos mais profundos da alma. Esses apelos, ao alinharem intenções, objetivos e valores, atestam a autenticidade do indivíduo.

​É compreensível que a mente humana ache estranho o modelo de vida proposto pela Bíblia. Nascemos, crescemos e formamos nossos conceitos aqui. Acostumamo-nos com o visível; portanto, o transcendente soa como algo alheio. No entanto, devemos compreender que ter clareza sobre esses elementos é o remédio eficaz contra o egoísmo que devasta o mundo.

​Da mesma forma, ao contemplarmos a genialidade impressa nas minúcias do cosmos, é natural presumir a existência de um Criador com capacidade proporcional. O universo exibe tamanha perfeição que atribuir sua origem ao mero acaso é uma incongruência lógica. Questionar como tudo veio existir não deve ser visto como pecado; a própria Bíblia recomenda a análise criteriosa: “Examinai tudo; retende o bem”   (1 Tess. 5:21). mas é fundamental buscar compreender essa situação sem buscar evidências fora desse contexto.                       O erro do ser humano é comparar os próprios limites à maestria transcendental de Deus, negando o Criador apenas porque não consegue mensurá-Lo com suas próprias réguas narcísicas.

​A verdadeira fé não se submete ao mero "acreditar" abstrato. Conforme as Escrituras, a fé autêntica une crença e constatação, credulidade e orientação. Não se trata de uma fé romantizada ou acrítica, mas de uma fé racional — alicerçada em verdades consolidadas na cognição.

​A vida não deve ser contemplada apenas pela ótica estritamente física (racional) nem apenas pela espiritual (filosófica), mas pelo equilíbrio de ambas. Elas formam um único bloco. Sem esse equilíbrio, não apenas os céticos erram o alvo, mas muitos crentes também se perdem pelo caminho.

​O Sofrimento e a Perspectiva Holística

​Outro grande equívoco humano diz respeito ao sofrimento. Poucos conseguem conectar a dor à fé de maneira realista. Na mente de muitos, Deus é associado aos flagelos, levando-os a rejeitá-Lo por revolta ou a aceitá-Lo por medo e conveniência. A justiça, a bondade e a sabedoria divina acabam esquecidas. Embora o sofrimento seja uma constante na vida humana, explicá-lo à luz de um Deus de amor deve ser matéria de constante reflexão, pois a forma como encaramos a dor molda o nosso estilo de vida.

​Como bem destacou Émile Zola: “O sofrimento é o melhor remédio para acordar o espírito.” Talvez a consciência da nossa fraqueza seja mais proveitosa do que a própria força.

​Podemos fazer uma analogia com a estereoscopia (do grego stereos, "sólido", e skopeo, "observar"). Trata-se da capacidade binocular que nos permite enxergar o mundo em três dimensões, ajustando dois pontos de vista ligeiramente diferentes para obter a noção de profundidade e distância.

​Espiritualmente falando, precisamos dessa visão binocular. Nenhuma conclusão sobre a vida pode ser definitiva sem passar pelo crivo de uma visão holística e profunda.

​A Bíblia como Objeto de Estudo

​Nosso objetivo nesta obra é examinar a literatura bíblica como núcleo investigativo. Dispomos de uma ferramenta fascinante, cuja datação atravessa milênios e abarca experiências de diversas eras.

​A Bíblia é o livro mais lido, traduzido e vendido da história. Trata-se do dossiê mais completo sobre a psique humana já elaborado. Por ela, homens ilustres deram a própria vida em fogueiras — como John Huss, Jerônimo, William Tyndale e Giordano Bruno —, muitos dos quais foram condenados por denúncias contra a corrupção religiosa, algo que a própria Bíblia já condenava.

​Notavelmente, o texto bíblico antecipou conceitos científicos e históricos milênios antes de sua formalização pela ciência moderna:

  • ​Referências a elementos cosmológicos, geológicos e biológicos séculos antes de mentes como Newton, Galileu ou Einstein;
  • ​Descrições precisas sobre o surgimento e a queda de impérios;
  • ​Uma estrutura original composta por 66 livros, escritos por cerca de 60 autores de diferentes culturas e épocas ao longo de 1.500 anos, sem que houvesse contradição entre si;
  • ​O aval de mentes brilhantes da história, como Martinho Lutero, Francis Bacon, Blaise Pascal, Isaac Newton, Abraham Lincoln e Francis Collins.

Ainda que estimativas apontem para cerca de 35 mil vertentes do cristianismo, e todas anunciem um mesmo  ideário como guia, tal dispersão doutrinária em nada compromete a essência das Escrituras. Se duas instituições apresentam versões conflitantes da mesma verdade, cabe a nós buscar na própria fonte o seu consenso.

​A Bíblia possui uma didática própria. Suas respostas encontram-se em seu próprio conjunto, exigindo um método de leitura alinhado ao que ela mesma sugere: “um pouco aqui, um pouco ali” (Isaias 28:10) e “comparando coisas espirituais com espirituais” (1 Coríntios 2:13). Ela não deve ser lida como um jornal sequencial, mas como um sistema integrado.

​Mediante essa abordagem, no tema do título "Cruz ou Espada: O Destino dos Homens", analisaremos a obra de Jesus Cristo e o sentido da existência humana.

​A cruz e a espada representam dois caminhos distintos. Entre eles estão Deus e a humanidade. De um lado, Deus toma Sua resolução; do outro, o homem precisa fazer sua escolha.

​Qual decisão Deus tomou? E qual escolha os homens farão?

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